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Correntes das artes gráficas japonesas
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28.08.2026
Atualizado em 28.08.2026

Correntes das artes gráficas japonesas

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28.08.2026
Atualizado em 28.08.2026

O que uma ilustração pode revelar sobre o seu tempo? Mais do que representar ideias, as imagens também podem traduzir comportamentos, referências, memórias e transformações de uma sociedade. É a partir desse olhar que a exposição WAVE – Novas Correntes nas Artes Gráficas Japonesas apresentou ao público brasileiro um recorte da produção gráfica contemporânea do Japão.

Realizada na Japan House São Paulo em 2022, a mostra reuniu trabalhos de 55 ilustradores e artistas gráficos japoneses, entre nomes consagrados e uma nova geração de artistas. Inédita no Brasil, WAVE apresentou diferentes possibilidades de criação que transitam entre artes visuais, livros, revistas, mangás, animações, pôsteres e publicidade.

Mais do que delimitar o que é ou não uma arte gráfica, a exposição propõe um mergulho na diversidade dessa produção no Japão. Afinal, quando se fala em ilustração japonesa, quais imagens vêm à cabeça?

Entre tradição e contemporaneidade

Com curadoria dos artistas Kintato Takahashi e Hiro Sugiyama, a exposição teve como referência a WAVE realizada anualmente em Tóquio desde 2018, dedicada a apresentar diferentes nomes atuantes nas artes gráficas japonesas. A edição apresentada pela JHSP colocou lado a lado artistas de diferentes gerações, linguagens e estilos.

Entre os trabalhos, foi possível encontrar personagens inspirados no folclore japonês, paisagens vibrantes, figuras oníricas, retratos inquietantes e imagens que exploram o humor e o absurdo. Essa variedade ajuda a perceber como a produção gráfica japonesa vai muito além de uma única estética ou linguagem.

Artistas pioneiros, como Teruhiko Yumura, Akira Uno e Keiichi Tanaami, dividiram espaço com nomes de gerações mais recentes, como Masanori Ushiki e Mayu Yukishita. O resultado é um panorama que evidencia tanto a continuidade quanto as transformações pelas quais as artes gráficas japonesas passaram ao longo do tempo.

O processo criativo por trás das imagens

Para conhecer melhor algumas dessas diferentes perspectivas, a JHSP também conversou com artistas participantes da mostra. A série de entrevistas produzida especialmente para a exposição permite olhar para as obras não apenas pelo resultado final, mas também pelas histórias, referências e processos que existem por trás delas.

Um dos entrevistados foi Keiichi Tanaami, artista associado à Pop Art japonesa. Nascido em 1936, Tanaami desenvolveu uma linguagem marcada por imagens dinâmicas, figuras oníricas e composições que transitam entre diferentes referências. Na entrevista, ele fala sobre sua trajetória, suas inspirações e a relação intensa com a própria produção artística.

A presença de Tanaami também evidencia como a arte gráfica ultrapassa fronteiras entre linguagens. Sua produção dialoga com o design, a cultura pop e as artes visuais, mostrando como essas áreas podem se encontrar e se transformar mutuamente.

Outra artista apresentada na série foi Mica Suga, que participou da exposição com a obra ‘Brincando de faz de conta’. Seu interesse pelas artes gráficas teve como uma de suas primeiras referências o pai, admirador do surrealismo de Giorgio de Chirico e Salvador Dalí. Em seu trabalho, diferentes elementos podem coexistir, inclusive aqueles que parecem ocupar extremos opostos — como o delicado e o assustador.

Já a artista Kotao Tomozawa, que apresentou slimeLXXV, começou a desenhar ainda na infância, influenciada pela mãe, que é mangaká. Em sua entrevista, ela compartilha sua trajetória e seu processo criativo, destacando como situações aparentemente banais ou absurdas do cotidiano podem se transformar em matéria-prima para a criação.

Três artistas, três trajetórias e três maneiras diferentes de observar o mundo. É justamente nessa diversidade que as edições de WAVE encontram suas principais forças.

Quando a arte também fala sobre a sua época

Mas como essas imagens se relacionam com a sociedade japonesa? E o que se pode descobrir sobre o Japão contemporâneo ao observar sua produção gráfica?

Essa foi uma das questões abordadas pelo Núcleo Educativo da JHSP durante o período expositivo. Em um dos encontros para discutir o conteúdo da mostra, propôs uma reflexão sobre diferentes artistas e as possíveis relações entre suas obras, a cultura japonesa de hoje e referências de outros períodos.

As artes visuais estão profundamente ligadas às questões de seu tempo — basta pensar em como as imagens dinâmicas e oníricas de Tanaami carregam ecos da explosão pop que atravessou o Japão do pós-guerra. Por isso, observar uma imagem também pode ser uma forma de observar uma sociedade: suas transformações, seus valores, seus imaginários e até suas contradições.

Em WAVE, referências tradicionais podiam aparecer ao lado de elementos da cultura pop, enquanto experiências pessoais conviviam com influências vindas da publicidade, do cinema, do mangá, da animação e do cotidiano. Em vez de separar passado e presente, as obras mostram como diferentes referências podem coexistir e ganhar novos significados.

Um Japão, muitas imagens

Talvez uma das melhores maneiras de compreender a mostra seja justamente abandonar a ideia de procurar uma única definição para a arte gráfica japonesa.

A exposição mostrou que ela pode ser colorida ou minimalista, divertida ou perturbadora, delicada ou estranha. Nasce de uma lembrança de infância, de uma referência artística, de uma situação cotidiana ou de uma imagem impossível — e tanto faz se está em uma galeria, um livro, uma revista, uma animação, um pôster ou uma peça publicitária.

Ao reunir artistas de diferentes gerações, WAVE – Novas Correntes nas Artes Gráficas Japonesas colocou em evidência uma produção que muitas vezes permanece desconhecida fora do Japão. E, ao aproximar o público brasileiro dos artistas e de seus processos criativos, a mostra propõe mais do que conhecer novas imagens: convidou a olhar para elas com mais atenção.

Porque, às vezes, uma imagem não termina ao ser observada — ela segue viva por meio de perguntas: de onde veio, o que a inspirou e o que ela pode dizer sobre o mundo ao seu redor.

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