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As plantas que o Japao inventou, por Raul Cânovas
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28.09.2026

As plantas que o Japao inventou, por Raul Cânovas

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28.09.2026

As plantas que o Japão inventou

Bem, não sei se foram inventos, mas o fato é que lá surgiram, há cerca de 400 milhões de anos, as primeiras plantas no período Devoniano. Os japoneses têm uma conexão antiquíssima e intensa com suas árvores. Muitas delas são admiradas como sagradas desde os primórdios do xintoísmo, no período Jōmon (13000 – 300 a.C.), que vê a natureza como morada dos espíritos (kami). A Cleyera japonica, conhecida como sakaki, cujas pequenas flores perfumadas, de cor creme, abrem no início do verão, têm seus ramos decorados com fitas de papel e é uma árvore sagrada no xintoísmo, assim como o Chamaecyparis obtusa, popularmente chamado de cipreste hinoki, que cresce nas regiões montanhosas com clima úmido, em altitudes de até 1.500 metros acima do nível do mar, alcançando 35 metros de altura. Seu óleo essencial é usado em cosméticos, como sabonetes e xampus, e a madeira é empregada como um incenso tradicional japonês por seu aroma leve e terroso.

Entretanto a Cryptomeria japonica, conhecida como sugi (cedro japonês), é a conífera mais emblemática do Japão, podendo alcançar 50 metros de altura ou até mais. Podem ser vistas em situações especiais, como ao redor de templos e santuários. Alguns exemplares gigantes são chamados de yakusugi, encontrados na ilha de Yakushima, localizada ao sul do Japão. Muitos têm mais de 2.000 anos.

A sakura veste a primavera de poesia

O Prunus serrulata, chamado de sakura, tornou-se o maior símbolo cultural do país. Seu florescimento, com pétalas branco rosadas, dura apenas alguns dias, inspirando o conceito de mono no aware, que podemos traduzir como uma sensibilidade à efemeridade das coisas, na apreciação estética da impermanência e transitoriedade das coisas. Essa tradição da contemplação de suas flores existe há mais de mil anos.

O Cinnamomum camphora (cânfora japonesa ou canforeira) é uma árvore perene da família Lauraceae, muito popular no Japão por produzir a cânfora, amplamente utilizada na medicina e em cosméticos, incensos e repelentes naturais, e tem como característica  flores branco amareladas. Também lembro da Magnolia stellata, (magnólia-estrelada) nativa especialmente na região de Honshu, ilha central do Japão,  com suas flores de perfume doce e suave –  muitas vezes comparado a uma mistura de notas cítricas, florais e de baunilha –  que tem formato de estrela e surgem parecendo tufos de pelúcia, com os ramos ainda desfolhados, sendo frequentemente visitadas por abelhas, besouros, moscas e borboletas. No Japão, a flor da magnólia é frequentemente associada à dignidade e à nobreza, sendo considerada uma flor sagrada.

É difícil relacionar as árvores e arbustos nativos no Japão, já que este possui uma flora muito rica, com cerca de 7.000 espécies de plantas distribuídas desde as florestas subtropicais das ilhas do sul, como as Ilhas Okinawa, especialmente nas Ilhas Ryūkyū onde habita a Cycas revoluta, conhecida como sagu-de-jardim, valorizada por sua beleza e resistência, até as florestas frias de Hokkaido, onde cresce a rosa rugosa (conhecida como hamanasu) um arbusto com flores de aroma agradável que variam de rosa escuro a branco, com pétalas enrugadas, que surgem na primavera. 

Lá, nos arredores de Sapporo, onde os invernos são frios e com muita neve, desenvolve-se espontaneamente o Acer palmatum “Atropurpureum”, chamado de bordo-japonês-vermelho, conhecido pelos japoneses como momiji. Reconhecido por suas folhas que lembram a palma da mão com os dedos separados e pela coloração vermelho-vibrante no outono, é um dos símbolos mais característicos das paisagens sazonais japonesas e amplamente cultivada como planta ornamental, sendo um dos bonsais mais apreciados no mundo. No Brasil, pode ser adaptado em regiões serranas, como a Serra da Mantiqueira e Serra Gaúcha, cujas alturas acima do nível do mar superam os mil metros. Levando em conta seu esplêndido encanto, o porte pequeno e as raízes não invasivas, pode ser considerado para arborização urbana, em ruas estreitas, inclusive sob a fiação e, claro, nos jardins residenciais, onde se destaca como ponto focal ou contrastando com a paisagem. No Japão, o momiji é símbolo de renovação e da transitoriedade da beleza natural. A prática do momijigari, “contemplação das folhas de outono”, é uma tradição milenar em que as pessoas viajam para apreciar a mudança das cores das árvores.

A tsubaki floresce com a serenidade da alma

Outra árvore ou arbusto que destaco é a Camellia japonica, conhecida no Brasil como camélia-do-japão e tsubaki pelos japoneses. Na cerimônia do chá, ela é uma das flores mais usadas, valorizada por sua simplicidade e sobriedade, em harmonia com o conceito de wabi-sabi, que na estética tradicional japonesa, centra-se na aceitação da transitoriedade e da imperfeição.

Tampouco devemos esquecer do Rhododendron japonicum e do Rhododendron indicum (azaleias japonesas) que por suas flores vistosas e cores vibrantes são amplamente cultivadas como plantas ornamentais em jardins e parques em todo o mundo. Já as azaleias perenes Satsuki são hibridizadas no Japão há pelo menos 500 anos e foram introduzidas no Brasil pelo patriarca da família Ishibashi, em Suzano – SP. 

Também não podemos omitir o Chrysanthemum indicum, (crisântemo-silvestre) que é celebrado no Dia do Crisântemo (Kiku no Sekku), um dos cinco antigos festivais sagrados do Japão, que é celebrado no 9º dia do 9º mês,  iniciado em 910, quando a corte imperial japonesa realizou sua primeira exposição de crisântemos – que são o símbolo da Casa Imperial do Japão. Um hábito popular do festival do Dia do Crisântemo é beber saquê com pétalas de crisântemo. Outra tradição é colocar algodão sobre as flores individuais de crisântemo para absorver o orvalho durante a noite. Na manhã seguinte, esse algodão  é removido e usado para esfregar no corpo todo. Dizem que esta superstição ajuda a proteger o corpo contra enfermidades. No simbolismo imperial japonês, ele representa a luz, a ordem e a continuidade do mundo. O selo da Família Imperial Japonesa é o crisântemo de 16 pétalas, ligado à ideia de um poder quase sagrado. Na literatura clássica japonesa, o crisântemo aparece como flor de pessoas refinadas, associado à elegância, disciplina e introspecção. Em poemas waka que são um estilo clássico  de poesia japonesa, se destaca pela sua simplicidade e profundidade, simbolizando a beleza que resiste ao fim do ciclo natural.

A glicínia floresce como uma cascata de sonhos

Uma trepadeira impossível de não lembrar é a glicínia japonesa, cujo nome científico é Wisteria floribunda, que se veste de flores brancas, rosas, violetas e azuis, que costumam florescer no hemisfério sul, mais especificamente no Brasil, entre o fim de outubro e início de dezembro. Ela cresce espontaneamente em regiões específicas com clima mais ameno e florestas temperadas e possui os caules florais mais longos de qualquer glicínia, atingindo, às vezes, 2 metros de comprimento. No Brasil, se desenvolve melhor em locais onde a temperatura noturna é mais fria, como Campos do Jordão (SP) ou Monte Verde (MG), e outros locais de serra, onde foi introduzida, provavelmente entre o final do século XIX e início do século XX.

A Alma Tropical do Japão

Uma curiosidade é o fato de o Japão ter plantas com características tropicais, já que o clima do país pode ser subártico, temperado ou subtropical. Nas Ilhas Yaeyama, localizadas no extremo Sul do Japão, surge esplendorosa a Satakentia liukiuensis, que ainda é desconhecida no Brasil, assim como a Arenga ryukyuensis, porém a Livistona chinensis (palmeira de leque) é muito usada no paisagismo brasileiro, sendo uma palmeira que desempenha papel importante na proteção do solo e na manutenção de ecossistemas costeiros e é nativa nas ilhas Ryukyu e Kyushu, no sul do Japão.

Tesouros Frutíferos do Sol Nascente

O caqui (Diospyros kaki) chegou no Brasil trazido por imigrantes japoneses em 1920. Seu nome Diospyros provém do grego antigo e significa “alimento de Zeus”, uma referência ao sabor agradável que possui. É plantado em solos férteis e drenados, sendo uma árvore apropriada para  jardins, onde, além de oferecer seus saborosos frutos, produz ainda uma boa sombra no verão, possibilitando a passagem do sol no inverno, especialmente nas regiões sul e sudeste do país, onde é mais cultivado.

Outra fruta notável é a Castanea crenata, conhecida como castanheira japonesa, uma árvore importante no Japão por sua produção intensa de nozes doces e comestíveis. São vários os cultivares selecionados pelos tamanhos das nozes. Outra pouco difundida no Brasil é o Elaeagnus umbellata, conhecida como groselha-japonesa, uma espécie com flor pertencente à família Elaeagnaceae. Seus frutos, vermelhos quando maduros, são polposos, suculentos e doces, podendo ser degustados frescos ou processados para geleias, condimentos, temperos ou usados como substitutos do tomate. E por último, só para citar as mais conhecidas entre as que fornecem frutos comestíveis, lembro do Cornus kousa, o corniso japonês, cujos  frutos têm um sabor doce, levemente amargo e cremoso, sendo usados geralmente para fazer vinhos.

Os paisagistas, criadores de jardins

Embora seja mundialmente conhecido como escultor, Isamu Noguchi (1904 – 1988) – designer e arquiteto norte-americano, de ascendência japonesa –  também projetou jardins, como o Parque Moerenuma, um parque municipal em Sapporo, sempre buscando integrar arte, arquitetura e natureza. Em seus projetos, as plantas nunca eram o elemento principal isolado: elas dialogavam com pedras, água, caminhos e o espaço vazio. Destaco o pinheiro (Pinus thunbergii), símbolo de permanência e resistência, o bambu celestial  (Nandina domestica), pelas folhas delicadas e frutos vermelhos, o azevinho-japonês  (Ilex crenata), empregado em massas verdes e topiaria e a flor de lótus (Nelumbo nucifera), luzindo em espelhos d’água. Noguchi preferia uma paleta vegetal restrita, deixando que as pedras, a água, a luz e o espaço fossem protagonistas junto com a vegetação.

Na atualidade, o monge japonês Shunmyō Masuno (1953) cria jardins Zen, não apenas como espaços ornamentais, mas como uma expressão da prática espiritual. É habitual o uso do pinheiro (Pinus thunbergii), talvez a árvore mais característica de seus projetos. Já Kazuyuki Ishihara (1958) é reconhecido internacionalmente por criar jardins inspirados nas paisagens naturais do Japão, sendo conhecido como “Magician of Greenery” (“Mágico da Vegetação”) depois que a falecida rainha Elizabeth II elogiou pessoalmente um de seus jardins durante o Chelsea Flower Show de 2010. Ele usa frequentemente a hortênsia Hydrangea macrophylla e  bambus, como o Pleioblastus pygmaeus e o Phyllostachys aurea, em seus trabalhos.

O Brasil possui uma forte tradição de paisagismo influenciada pela imigração japonesa. Há profissionais nascidos no Japão e brasileiros – descendentes de japoneses (nikkeis)  ou não – profundamente inspirados pela estética dos jardins japoneses. Um dos mais destacados foi Haruyoshi Ono (1943-2017), filho de japoneses, que trabalhou por mais de 30 anos ao lado do artista e paisagista Roberto Burle Marx (1909–1994), trazendo ao  escritório de seu mestre uma sensibilidade japonesa voltada para o equilíbrio, a contemplação e a precisão dos detalhes. Igualmente cito Alex Hanazaki (1975), um dos paisagistas mais renomados do Brasil, nipo-descendente, que frequentemente incorpora princípios da estética japonesa, sendo o responsável pelo paisagismo da Japan House São Paulo, concebido em diálogo com o arquiteto Kengo Kuma. E Pedro Miwa que integra princípios japoneses ao paisagismo contemporâneo residencial, apenas para citar os mais conhecidos.

As plantas que o Japão “inventou” não nasceram apenas da natureza, mas também da dedicação humana. Ao longo dos séculos, jardineiros, monges, horticultores e paisagistas transformaram espécies comuns em símbolos universais de beleza, equilíbrio e harmonia. Conhecê-las é compreender um pouco da alma do Japão e perceber que um jardim pode contar a história de uma civilização.

Sobre o autor - Raul Cânovas

Com 60 anos no setor, Raul vem de uma família que atua nas áreas de jardinagem e projetos paisagísticos há 108 anos. Em 1966 conquistou o 1º Prêmio na “II Exposición Hortícola Internacional”, realizada em Buenos Aires; em 1997 o 2º Prêmio no Concurso “Paulista Viva” e o 3º Prêmio no “Concurso de Revitalização do Centro de São Paulo”, integrando a equipe do urbanista José Moraes. Esteve envolvido no projeto/execução de  mais de 2800 jardins em sua carreira. Nos últimos quatorze anos ministrou 215 palestras e 420 aulas em cursos e eventos, em 62 cidades do país e em outras como: Paris (Association des architectes-paysagistes), Buenos Aires (Universidad de Buenos Aires), San José, na Costa Rica (Universidad Veritas) e na Rússia (durante o Green Arrow Landscape Forum).

Durante sete anos comandou o programa “Jardins e Afins”, na Rádio Eldorado AM. É autor de publicações, como  “O Jardim Como Remédio”, “Planta Certa para o Lugar Certo” ” Lições de Paisagismo (Coleção – 2 livros)”,  “101 Dúvidas Resolvidas”, “Planta Certa para Vasos” e “Um Jardim para Sempre”, além de “Projetos dos Grandes Paisagistas Brasileiros” (em co-autoria). É conselheiro da ANP – Associação Nacional de Paisagismo e da APV – Associação Paulista Viva. 

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