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O mangá japonês no dia a dia: como o Japão se tornou o país dos mangás?
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JHSP Online
17.03.2026
Atualizado em 02.04.2026

O mangá japonês no dia a dia: como o Japão se tornou o país dos mangás?

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17.03.2026
Atualizado em 02.04.2026

Yu Ito, especialista em estudos de mangá e em folclore, explica

Os mangás apreciados no dia a dia

Você lê mangá? Se sim, em quais situações do dia a dia você costuma ler?

Um dos locais onde trabalho é o Museu Internacional de Mangá de Quioto (Kyoto International Manga Museum). No passado, realizamos uma pesquisa com os visitantes do museu sobre o ambiente em que leem mangás. O resultado mostrou que cerca de 80% das pessoas leem mangá em casa; além disso, aproximadamente 40% leem enquanto assistem à TV; cerca de 30%, enquanto usam o banheiro; e cerca de 10%, enquanto comem ou relaxam na banheira. Todos esses atos fazem parte de atividades que realizamos repetidamente de forma inconsciente, ou seja, integram o nosso cotidiano.

Isso quer dizer que o mangá, frequentemente, é lido como uma extensão da vida cotidiana no Japão. Isso também pode ser percebido pela postura de leitura das pessoas. Na pesquisa citada, perguntamos sobre a postura adotada ao ler mangá. Superando as respostas ‘em pé’, ‘sentado no chão’ e ‘sentado em uma cadeira’, mais de um terço dos participantes respondeu que lia ‘deitado’. O principal espaço da vida cotidiana é o lar, e o lugar onde pode ‘deitar-se’ para ler não é outro senão a própria casa.

O mangá como ‘produto de lazer de fácil acesso’

Indo mais longe, o mangá no Japão desenvolveu-se como um ‘produto de lazer’ prático e acessível, voltado especialmente a preencher pequenos intervalos do cotidiano. Talvez isso fique claro quando comparamos os preços e o formato editorial do mangá japonês com os quadrinhos franceses, considerados a ‘nona arte’ e conhecidos como bande dessinée.

O tankōbon (n.t.: formato de publicação utilizado no mercado editorial japonês) de mangá no Japão tem aproximadamente 200 páginas, e os mais em conta custam em torno de 400 a 500 ienes. Por outro lado, os quadrinhos do bande dessinée franceses têm cerca de 50 páginas e custam entre 1.500 e 2.000 ienes. O primeiro possui capa mole e utiliza papel leve, barato e de textura mais áspera. A dimensão mais comum é o B6, um tamanho ideal para ser lido deitado. Já o segundo usa papel liso, mais caro e resistente, que valoriza a impressão colorida. A encadernação também é mais robusta, geralmente em capa dura. O mangá japonês, principalmente as revistas de mangá, é produzido sob a premissa de ser descartado após a leitura. Já a bande dessinée, enquanto ‘arte’, é concebida para ser preservada de forma semipermanente, como no caso dos livros de arte de Turner ou Bacon.

Por outro lado, embora o mangá seja um item cotidiano vendido a preços acessíveis, mesmo considerando apenas as vendas de tankōbon e revistas, trata-se de uma indústria gigantesca, que movimenta um mercado anual na ordem de 700 bilhões de ienes. Hoje em dia, mais da metade desse montante corresponde às vendas de livros digitais, mas os livros impressos ainda continuam sendo produzidos em escala fenomenal. Por exemplo, os volumes mais recentes de títulos populares como ‘ONE PIECE’ e ‘Meitantei Conan’ (n.t: Detective Conan, também conhecido como Case Closed) alcançam, respectivamente, tiragens superiores a 3 milhões e 1 milhão de exemplares chegam nas mãos dos leitores. 

No Japão, mais de 10 mil títulos de mangá são publicados anualmente. É possível imaginar, portanto, que uma quantidade imensa de mangás esteja presente em todos os cantos da vida cotidiana japonesa.

Abundância de character goods 

Uma das características da indústria japonesa de mangás é que ela não se sustenta apenas pelas publicações. Além da produção de animes, filmes live-action, séries de TV e peças teatrais baseados em mangás, os chamados character goods (produtos de personagens) — isto é, itens que estampam personagens das obras — são produzidos em grande variedade e podem ser facilmente adquiridos. Por exemplo, artigos de papelaria, roupas e embalagens de alimentos, itens indispensáveis ao cotidiano, são transformados em character goods. O ponto crucial é que esses produtos são comprados e utilizados diariamente até mesmo por pessoas que nunca leram o mangá original em que tais personagens aparecem.

Talvez essa abundância de character goods esteja relacionada ao fato de que os fãs de mangá no Japão consideram os personagens — que deveriam ser apenas um dos elementos da narrativa — tão ou mais importantes do que a própria história. Uma parcela significativa de leitores chega inclusive a criar novas narrativas a partir de seus personagens favoritos, por vezes combinando até personagens de diferentes obras, transformando-as em novos mangás ou romances. Um exemplo representativo é o BL (Boys’ Love, anteriormente chamado de ‘yaoi’), no qual personagens masculinos de mangás comerciais são retratados como casais.

Os mangás que também transbordam nos espaços públicos

Nos meados da década de 1990, o mangá japonês passou a alcançar ampla popularidade também no Ocidente. Acredita-se que um dos fatores decisivos tenham sido os animes baseados em ‘DRAGON BALL’ e ‘Bishōjo Senshi Sērā Mūn (Sailor Moon)’. A difusão da popularidade do mangá no Ocidente transformou profundamente, dentro do próprio Japão, a percepção de que o mangá seria algo apreciado apenas por um grupo restrito de fãs ou, dito de outra forma, uma cultura antes subestimada como sem importância.

A partir dos anos 2000, o próprio Estado passou a apoiar ativamente o mangá como uma das culturas importantes do Japão. Além disso, no meio acadêmico, o mangá passou a ser reconhecido como objeto de pesquisa. A realização de exposições individuais de Hirohiko Araki e do grupo CLAMP em museus nacionais de arte pode ser considerada um acontecimento simbólico que evidencia a mudança da posição social do mangá a partir da década de 2010.

Tendo como pano de fundo essa sequência de movimentos que passaram a considerar o mangá uma ‘cultura pública’, as expressões de caráter ‘mangaístico’ tornaram-se cada vez mais presentes nos espaços públicos. Personagens de obras populares passaram a ser utilizados em campanhas governamentais para divulgar políticas públicas, e cartazes em estações de trem e metrô voltados à conscientização sobre regras de convivência passaram a ser produzidos no próprio formato de mangá. Mesmo na recente Expo 2025 Osaka-Kansai, personagens como Atomu, de Tetsuwan Atomu (Astro Boy), e Gundam, de Kidō Senshi Gundam (Mobile Suit Gundam), assumiram papel de destaque como o ‘rosto’ do evento. Não seria exagero dizer que se tratou de uma ‘Expo Mangá’.

Assim, o Japão foi se consolidando como o ‘país do mangá’, reconhecido tanto nacional quanto internacionalmente.

Yu Ito recomenda algumas obras para quem quer iniciar a leitura de mangás:

→ Black Jack, de Osamu Tezuka

Não é possível falar do mangá pós-guerra sem mencionar Osamu Tezuka. Estima-se que ele tenha produzido mais de 50 mil páginas de mangá, desde sua estreia em 1946 até seu falecimento, em 1989. Aqui, recomendo Black Jack, obra cujo protagonista é médico cirurgião fora da lei, criado por um autor que também possuía licença médica. É simplesmente magistral a forma como todas as questões relacionadas ao corpo e à mente humana são condensadas e concluídas em narrativas independentes com caráter de entretenimento.

 

→ Nausicaä do Vale do Vento, de Hayao Miyazaki

O diretor de animação reconhecido pelas obras Tonari no Totoro (Meu Vizinho Totoro) e Mononoke Hime (Princesa Mononoke) é também um talentoso mangaká. Na verdade, a obra de animação Kaze no Tani no Nausicaä (Nausicaä do Vale do Vento) foi baseada em um mangá que ainda não havia sido finalizado quando o filme animado foi lançado. Na versão ‘completa’ do mangá, as temáticas como coexistência da humanidade com a natureza, a sociedade humana quanto sociedade política, são retratadas de forma mais densa.

 

→ Giga Town Manpu Zufu, de Fumiyo Kōno

Fumiyo Kōno é conhecida por Kono Sekai no Katasumi ni (Trad. livre: Em um Canto do Mundo), mangá sobre a bomba atômica que foi adaptado para o filme de animação, mas é, na verdade, é uma mangaká que transita constantemente por uma ampla diversidade de temas. A cada obra, ela modifica os materiais utilizados ou inventa novas formas de expressão, podendo ser considerada uma autora que se desafia, e que tem como tema central o próprio potencial da linguagem do mangá. Giga Town é um mangá introdutório sobre a linguagem expressiva do mangá, no qual os animais antropomorfizados do Chōjū-jinbutsu-giga — pergaminhos ilustrados dos séculos XII e XIII — explicam mais de 100 símbolos característicos do mangá, conhecidos como manpu.

Como recomendação ‘extra’, apresento dois livros que permitem conhecer a própria cultura do mangá japonês, pois ao compreender o panorama cultural como um todo — sua história, sua estrutura industrial e suas formas de disseminação — torna-se possível apreciar cada obra de maneira mais profunda.

 Catálogo da grande exposição ‘mangá’, realizada no Museu Britânico em 2019

A mostra causou impacto não apenas entre os profissionais ligados ao mangá, mas também entre especialistas de museus de todo o mundo. Como se espera de uma exposição realizada em um museu histórico de longa tradição, ela apresentou de forma completa o contexto da cultura do mangá.

→ O que é mangá? Uma introdução aos quadrinhos japoneses

Trata-se de um livro que reúne conteúdos da exposição permanente do Museu Internacional de Mangá de Quioto, um dos locais onde eu trabalho. É um livro ilustrado estruturado em oito temas, concebido com a proposta de responder às perguntas frequentes (FAQ) de visitantes estrangeiros pouco familiarizados com a cultura do mangá japonês, explicando suas principais características.

Curiosidades surpreendentes sobre o mangá

→ Os mangás já foram queimados

No passado, o mangá foi considerado um ‘livro nocivo’ para as crianças, sendo visto como algo que deveria ser eliminado da sociedade. Em especial, o ‘Movimento de Expurgo dos Livros Nocivos’, da década de 1950, ficou conhecido por seu extremismo. Em 1955, uma associação de pais que defendia o desenvolvimento saudável das crianças chegou a queimar dezenas de milhares de exemplares considerados ‘livros nocivos’, incluindo mangás.

→ Um personagem de mangá teve um funeral na vida real

Embora o mangá tenha se desenvolvido como uma cultura voltada às crianças, na década de 1960, muitas revistas voltadas ao público adulto surgiram de forma sucessiva, e até mesmo as revistas voltadas ao público ‘shōnen’ (n.t.: mangá voltado para público de adolescente masculino) passaram por um processo de amadurecimento. Quem se entusiasmou intensamente com Ashita no Joe (Ashitano Joe – Em Busca do Amanhã), publicado na revista Shūkan Shōnen Magazine (roteiro de Asao Takamori e arte de Tetsuya Chiba, 1967–73), foi o público adulto. Em 1970, foi realizada uma cerimônia de despedida para um personagem que morreu na narrativa, e numerosos fãs compareceram para prestar suas homenagens.

→ Qual era, afinal, a verdadeira idade de Osamu Tezuka?

Osamu Tezuka é considerado o autor mais importante da história do mangá no pós-guerra. No dia de sua morte, em 1989, todos os jornais veicularam essa notícia nas primeiras páginas e até mesmo pessoas que não eram fãs de mangá tomaram conhecimento de sua relevância. No entanto, posteriormente descobriu-se que a idade divulgada na ocasião — 62 anos — estava incorreta: ele tinha, na verdade, 60 anos. Como Tezuka estreou antes de completar 20 anos, teria acrescentado dois anos à própria idade para não ser subestimado. Diz-se que até mesmo seus familiares foram enganados, o que reforça a imagem de um Contador de histórias extraordinário.

→ ‘Direita’ que virou ‘Esquerda’

A partir de meados da década de 1990, a publicação de mangás traduzidos tornou-se bastante ativa no Ocidente. No início, essas edições eram frequentemente impressas com as páginas invertidas (em espelhamento), pois os mangás japoneses são lidos da direita para a esquerda, enquanto no Ocidente a leitura ocorre da esquerda para a direita. Nas primeiras edições em inglês de Kiseijū (Parasyte), de Hitoshi Iwaaki, o nome do parasita que se aloja na mão direita do protagonista, Migī (derivado da palavra japonesa para ‘direita’), foi adaptado para ‘Lefty’. Posteriormente, porém, a maioria das traduções passou a ser publicada mantendo o formato original japonês, da direita para a esquerda.

→ Uma página original de mangá foi arrematada por 35 milhões de ienes

No Japão, os originais de mangá, conhecidos como genga, eram considerados materiais intermediários do processo de produção, anteriores à impressão do livro, e em alguns casos chegavam até a ser descartados. Nos últimos anos, porém, seu valor passou a ser reavaliado, e o próprio Estado começou a investir no arquivamento dessas obras. Por outro lado, no Ocidente, onde os originais de quadrinhos sempre foram vistos como uma forma de arte, existe inclusive um mercado consolidado para esse tipo de peça. Em 2018, em um leilão realizado na França, uma página original de Tetsuwan Atomu, de Osamu Tezuka, foi arrematada por 35 milhões de ienes, surpreendendo os profissionais do setor.

Sobre Yu Ito

Nascido em 1974. Professor convidado do Centro Internacional de Pesquisa em Mangá da Universidade Seika de Kyoto. Especialista em estudos de mangá e em folclore. Atualmente, suas pesquisas na área de estudos de mangá concentram-se em ‘exposições de mangá’ e ‘mangá educativo’.

Realiza curadoria de numerosas exposições de mangá no Japão e no exterior, atuando principalmente junto ao Museu Internacional de Mangá de Quioto, com o qual se envolveu desde a sua criação. Entre elas, destacam-se: Deslocando levemente o cotidiano (Palazzo Ducale, Lucca, Itália, 2014); Mangá, Hokusai, Manga — ‘Hokusai Manga’ vista a partir do mangá japonês contemporâneo (Instituto Cultural Japonês em Roma, Itália, 2017, entre outras); e Mangá e Guerra 2 (Museu Internacional de Mangá de Quioto, 2025, entre outras).

 

*Conteúdo cedido pela Japan House London.

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